Num mundo de constantes mudanças, muda até mesmo a forma de aprender. Universidades já trabalham com novas metodologias de ensino: abusam do online, uma grande tendência, mas revisitam o vintage. Por que vintage? Porque têm usado jogos para ensinar sobre comportamentos e técnicas necessárias ao desempenho do profissional do futuro – algo não muito novo, mas não ultrapassado.

gameficação

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Em Harvard, a Sala Invertida é a tendência do momento. Os alunos estudam em casa e nas salas de aula experienciam o que leram ou viram em vídeos enviados antecipadamente pelos professores. No Brasil, também existem experiências visando as vivências para marcar o conhecimento. Alunos de escolas e universidades usam o Design Thinking e jogos de computador para buscar soluções para os problemas da própria escola ou da comunidade em que vivem.

E o mais interessante é que também nas empresas este jeito de aprender vem mudando. Se antes o que havia eram palestras e treinamentos usando power point, agora o cenário já começa a ficar bastante diferente. Ao invés de se reunirem em uma sala fechada, equipes compostas por colaboradores, coordenadores e diretores se reúnem em locais inusitados. Pode ser uma área aberta de um sítio, um espaço amplo em um hotel ou clube, um ambiente de mata fechada ou até mesmo salas das quais precisam escapar.

Na área aberta de um sítio participam de atividades que simulam as provas do exército. Apenas um jogo ou atividade física? Não. Um treinamento focado, por exemplo, em estratégias de negociação. No espaço do hotel, usam o Lego – isso mesmo, aquelas peças tão antigas. Para brincar? Não. Para criar o cenário de uma empresa, uma visão comum, com o Lego Serious Play.

Na mata fechada, batalham com o paintball. Com qual objetivo? Disputar clientes representados por bandeiras colocadas em pontos estratégicos. E das salas das quais precisam escapar – em times, geralmente – revelam aspectos de personalidade para liderança, estratégia, foco; ou seja, tudo aquilo que se busca em uma equipe de trabalho para obter resultados na empresa.

Treinamentos sob medida

São várias as empresas que hoje investem na oferta deste tipo de treinamento. Uma delas é a Kreativ Factory, com sede em Curitiba e representações em São Paulo, Brasília e no nordeste do país. A ideia é criar treinamentos personalizados de acordo com a demanda de cada cliente. “Nós trabalhamos com treinamentos indoor e outdoor”, explica Rodrigo Saporiti, um dos sócios.

“Fazemos desde palestras – sempre com algum diferencial – até as provas mais radicais. Tudo sempre elaborado a partir de um briefing feito com o próprio cliente. É ele quem nos aponta o que deseja trabalhar na equipe. Adaptamos as provas de acordo com estes objetivos. Um dos nossos carros-chefes é o team building”, conta Saporiti.

“A gamificação, termo do momento, consiste em transformar todo o conteúdo de um treinamento corporativo em algo divertido e marcante”, comenta a sócia da empresa, Vivian de Albuquerque. “Isso porque a diversão e o engajamento que se conseguem nesse tipo de dinâmica geram insights que normalmente ficam mais vivos na memória de quem participa. Não à toa um dos momentos mais importantes deste tipo de treinamento é o processamento. É nele que é feita a correlação da atividade – que aparentemente parecia uma ‘brincadeira’ – com o que acontece no dia a dia da empresa.”

Provas e aplicativos

Recentemente, a Kreativ Factory realizou um treinamento para 100 engenheiros atuantes no comercial de uma grande empresa de materiais elétricos. Nas provas externas foi trabalhado o conceito de time e a importância do trabalho em conjunto para a obtenção de resultados. Mas algo que também fez sucesso, além das provas outdoor, foi o uso de um aplicativo de celular para testes de conhecimento.

“Apresentamos um acompanhamento para cada palestra – eram mais de 12 – e ao final de cada uma usamos o aplicativo de celular para fazer os testes”, conta Fernando Enóbi, um dos treinadores da Kreativ Factory. “Foi uma gamificação dos testes formais. O aplicativo apresenta opções de resposta, tem a musiquinha dos games e ainda gera um pódio com os resultados. Foi muito interessante ver as reações dos participantes. A espera pelo teste e pelas pontuações ao final de cada palestra gerou engajamento e foco no conteúdo apresentado, superando a expectativa do nosso cliente.”

A teoria dos jogos diz que o adulto quando joga volta a se comportar como criança. E a criança, em sua essência, é autêntica. Assim, com a aplicação dos jogos de empresa e da gamificação, os participantes revelam traços de comportamento que são importantes tanto para serem potencializados – se positivos, quanto mudados – se negativos. E são os insights nas dinâmicas que podem levar à mudança comportamental na busca por melhores resultados.

Manual de franquia ou um jogo?

Situada em Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba, uma das empresas que resolveu adotar a gamificação em seus treinamentos foi a Kapazi. Fabricante de tapetes, a marca decidiu abrir microfranquias e capacitar os novos franqueados. O desafio da Kreativ Factory foi transformar o manual com todos os produtos e técnicas de vendas em um jogo de tabuleiro. A aplicação foi feita em 20 mesas de jogo para 100 franqueados que jogaram simultaneamente.

“Pensamos em todos os detalhes”, comenta Rodrigo Saporiti. “Como estávamos falando de tapetes, criamos um cenário no deserto para um personagem – um mercador de tapetes – que visitava estabelecimentos diversos levando seus produtos. Como nos jogos de tabuleiro convencionais, também colocamos no nosso projeto bonificações e penalizações. As regras eram bem claras e para ganhar e acumular pontos os franqueados precisam conhecer produtos, perfis de clientes e o mercado. O resultado foi fantástico e as fotos ficaram incríveis. Além do jogo, caracterizamos também os jogadores, com turbantes, coroas e bigodes, para realmente criar o cenário e envolvê-los no aprendizado”. No site da empresa (www.kreativfactory.com.br) é possível ver um vídeo mostrando os melhores momentos do jogo.

“Apesar de sermos uma empresa que cresce a cada dia, nós não tínhamos o hábito de treinamentos comerciais. Como precisávamos criar uma dinâmica para treinamento de produto e técnicas comerciais, buscamos a Kreativ para montar para nossa rede de franqueados, na nossa convenção, um jogo que tivesse a característica da nossa organização. Um jogo que trouxesse o nosso processo comercial, que é muito forte no venda porta a porta e no agendamento de visitas, e que evidenciasse para nossos franqueados onde o produto tem maior adesão e quais os segmentos para cada linha”, conta Francisco Tramujas, diretor comercial da Kapazi.

“Foi um trabalho sensacional. A maneira como foi aplicado ficou muito acima da nossa expectativa. E deu tão certo que hoje usamos o jogo para treinar nossa equipe interna e franqueados. Alguns dos nossos maiores franqueados nos pediram o jogo para aplicarem com suas equipes. Usamos isso para colocar meta de vendas para eles. Os franqueados que atingiram as maiores vendas receberam o jogo como prêmio. Conseguimos treinar nossos comerciais de uma maneira lúdica, gerando aprendizado rápido”.

Turismo criando soluções

Outro cliente que vem investindo nos treinamentos on demand é o Club Med. Para ele, a Kreativ Factory desenvolveu uma ferramenta própria de Design Thinking que foi aplicada com mais de 200 agentes de viagens. “O objetivo era, usando a técnica – bastante divertida e envolvente – criar novas formas de vender um dos produtos da rede hoteleira all inclusive. Tudo o que foi produzido gerou depois um e-Book que foi enviado para todos os participantes e hoje serve como uma espécie de guia para as agências”, explica Lecxander Toledo, treinador da Kreativ Factory.

“Club Med é sinônimo de experiência em hospedagem. Quando penso em encantar os clientes, penso em demonstrar nosso DNA sobre como transformar todos os momentos em vivências positivas”, comenta Marco Oliva, CEO do Club Med.

Neurocientificamente comprovado

A própria neurociência explica a efetividade dos jogos para os treinamentos. Como os jogos trabalham com o princípio da “mão na massa”, ou seja, com o aprender fazendo, ativam áreas do cérebro responsáveis pela criação de novas conexões. E o que as mãos têm a ver com isso? Basta nos recordarmos da nossa própria história. Do macaco evoluímos para o homem das cavernas. Quando este começou a andar sobre as duas pernas e ficar com as mãos livres, passou a usá-las de forma mais inteligente que seus primórdios. Enquanto os primeiros batiam pedras para quebrar nozes, os homens faziam ferramentas e com elas, começavam a mudar o mundo.

Alguns estudos mostram as áreas do cérebro responsáveis por essa ativação com as mãos. Elas aparecem muito maiores desde quando evoluímos. Assim, quando fazemos uma jangada para atravessar um pequeno lago, usamos o airsoft para atingir um balão e responder a uma pergunta ou construímos nossa visão da empresa a partir de peças de Lego, estamos usando as mãos e aprendendo. Um aprendizado muito mais eficaz do que simplesmente ler ou ouvir. A retenção é maior e, com ela, são maiores também os resultados.

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